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UM POETA CRESPUSCULAR?

ADELI SELL

         Mário Quintana dizia que "a poesia não se entrega a quem a define", pois ela é sentida, vivida e transporta o leitor pela emoção e imaginação, transcendendo o óbvio e o sentido utilitário.

         Estou aqui com a edição de “Canto dos Olhos”, do Paulo Timm. Já tinha lido os originais, pois escrevi a orelha.

         É uma edição muita bem feita pela Editora Alcance, com este olhar de poeta do Rossyr Berny. A capa é uma baita sacada de William Castro.

         O autor divide as quase 200 páginas em Sentimentos, Trovas e versos casuais, Memórias, Meditações Poético-filosóficas, Sertanares (para homenagear o autor de Grande Sertão, Veredas), Despedida e Outros textos do autor.

         Eu anotei no livro que Paulo Timm, como caminhante atento, não tropeça na Porto Alegre dos buracos, é com “Canto dos Olhos” que se fixa e apruma versos.

         Paulo é um poço eclético, economista e polemista, bom cronista, radialista; aqui, tira a pose de professor, e nos fala como poeta.

         “Ah! Enfim o compreendi. /Já não me intimidas/ Oh, universo!”

         Paulo criou coragem, já velho, pois nasceu em 44, pois é um autor profícuo de artigos, na crônica ele vai muito bem - vide “Crônicas de Porto Alegre”. 

         “Canto dos Olhos” trazem versos que deixam de lado um “Oh de casa” e ele já vai entrando. Aí vem verso que para de pé, alça voo como uma gaivota e vai destas folhas rabiscada para a Eternidade.

         Desvestido, canta os encantos de Marilyn, a ousadia juvenil de Harrison, lança dardos para a mulher “que nesta ilusão me arraste/do incerto qualquer/ para o que der e vier”. Sem esquecer do negro Abdias: “Meu país negro/Tão cheio de dores”.    

         Paulo Timm diz das perdas e das incertezas e da Finitude.     “Não só a vida se acaba/ Nela se acaba tudo também”.

         Por que eu pergunto se Paulo Timm é um poeta crepuscular?

         Porque autores cuja obra se caracteriza pela melancolia, intimismo, temas cotidianos simples e uma atmosfera de fim ou declínio, muitas vezes associada à transição do simbolismo para o modernismo.

         E daí, Paulo é um pouco assim e muito mais, por isso, estou com Quintana,  pois não consegui como leitor defini-lo.

         No seu “Tributo a meus inspiradores”, Paulo Timm diz:

         “Sou um poetinha normal, até cordial

         Comecei há pouco neste ofício

         (...)

         Inspirado na minha solidão Que é a cidade morta onde vicejo.”

         Há uma melancolia quando diz:

         “Tempo algum

         ninguém

         nenhum lugar.”

         E vai adiante:

         “Arranca-me com teu canto desta masmorra

         Exílio dos mais insinuantes aromas

         Que outrora me enfeitavam aromas.”

         Sendo nosso autor um amante da nossa cidade, encontrando o que ela é atualmente para alguém que viveu os anos 60 por aqui, cabe o que nos diz a urbanista Betânia Alfonsin:

         “(...) MELANCOLIA URBANÍSTICA é um sentimento emergente dos habitantes das cidades, causado pela impotência experimentada diante da destruição de queridas ambiências urbanas, que podem não ter importância alguma para a indústria da construção civil, mas são centrais na construção de memórias coletivas, da sociabilidade e da identidade de um bairro.”

         “Resta-me do que não me pertence

         nem pertencerá a ninguém um dia

         O vazio.”

         Vai além:

         “Falta-me o sentido,

         Do mundo. Das coisas, De ti.”

         E não para aí:

         “Mas o que mais me matou de dor neste maio de águas bastas

                   Foi elas terem carregado meu precioso álbum.

                            Lá estava a foto da minha última lembrança de                                                                                            Janine.”

         Tem os títulos: Tudo flui, Em vão, Não me pergunte:

         “Não me pergunte onde estou

         Simplesmente não estou.”

         E é taxativo:

         “Aí me justifico a solião

         Única companhia solidão que se me dão

         Neste dia qualquer de véspera do verão.”

         E eu não posso fugir do  ecletismo de seus textos, fugindo do “poeta crepuscular” caminha para suas reflexões filosóficas. E lá vem ele com uma baita crônica no meio dos versos - Lembranças de Porto Alegre. É o memorialista que em dez páginas debulha a velha e querida Porto Alegre. Vêm versos que lembram tango, Hemingway, sua Santa Maria, onde viveu muito jovem, lembra-se do amigo Flávio Koutzii.

         Na parte das Reflexões filosóficas vai de Sócrates, passando por Kant e Deleuze,  a Shopenhauer.

         Na parte “Sertanares” temos uma amostra de um leitor voraz, dos melhores clássicos aos autores da atualidade, pois vai ao âmago do autor de Grande Sertão, Veredas.

         E vêm com suas trovas, joias em quatro versos: “Assim caminha a humanidade/ Na base do vale-tudo/Os tolos não param diante de nada/ Os sábios diante de tudo”.

         Paulo Timm bebe algo no velho e bom simbolismo, adentra o realismo, para ser moderno total. Crepuscular por vezes, mas é um homem que foge da melancolia, pois é um interlocutor para os melhores papos, como mostram versos e outros escritos dele.

         É um livro para ser tomado, lido, degustado, para poder voltar, pensar, repensar nosso viver, afinal o tempo corre, não há trampas para vencer a Finitude.

         Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.

 
 
 

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